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Coração na forca

Entre a câmera e o corpo repousa um véu. Esse tecido cobre a razão, mas deixa a imaginação exposta pela fresta. Embora filmado em locação acanhada, Capitu e o Capítulo (Julio Bressane, 2021) é quase todo atravessado pela profundidade de campo. Às vezes o horizonte é parte de uma mesa, noutras é a extensão de uma pintura pregada na parede. Assim é o olho do artista diante da exatidão. Um quadro traça seu recorte, entretanto nunca se encerra, pois a paisagem sempre está aquém da fantasia.


Ao adaptar as palavras do Bruxo de Cosme Velho, o caminho escolhido não poderia ter sido diferente. Primeiro, porque em casa é onde residem os segredos de alcova. Não é preciso sair dela para descobrir a imperfeição do mundo. Depois, porque uma obra não se faz por si só. Então, além de evocar Machado de Assis, pintores e músicos das mais variadas matizes, Bressane evoca antes de tudo a si mesmo. É olhando para o próprio umbigo que se enxerga a espiral da criação. Portanto, trechos de seus filmes brigam entre si para obter um lugar à sombra. O presente é uma penumbra que paira sobre o passado luminoso e adultera sua memória. Capitu e o Capítulo é mais sobre os sentimentos sombrios que tomam forma na velhice do que sobre as inseguranças supostas na juventude.

Aliás, é através das superfícies escuras que percorremos o escritório do velho Casmurro (Enrique Diaz), onde não há espelho nem janela. Ao mirar o passado, Casmurro e Bressane avistam um futuro interditado pela morte. Não há mais horizonte depois do pacto com o caos. O idoso seguro de si não é nem sombra do jovem Bentinho (Vladmir Brichta), incerto sobre o próprio destino. Afinal, a juventude é feita de traições, enquanto a velhice é tomada pela confiança. Trair é quebrar tradições, seguir em frente e pular no abismo. Confiar é perecer diante das certezas, numa vida estagnada e quase sem luz.


Em meio ao horizonte surgem caminhos sinuosos. Os cabelos volumosos de Capitu (Mariana Ximenes) se misturam às dobras da cortina. Os olhos esbugalhados de Bentinho recaem sobre os arabescos do tapete. Figura e fundo tornam-se cúmplices de um caso consumado: Capitu arde em desejo por Bentinho, que só tem olhos para si mesmo. O coração apertado sufoca a razão, depois se mata. Daí em diante somos tanto ferro e fogo quanto imagem e som. Onde se vê fúria, ouve-se a calmaria do mar e a serenidade de uma velhice solitária onde cresce o rancor.


Roberto Cotta



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