• Roberto Cotta

Justa medida

Atualizado: 27 de jan. de 2021

Os curtas sempre me interessam mais, não tem jeito. Porém, quatro dias de festival se passaram e consegui ver poucos deles. Ontem assisti à primeira sessão da Foco, competitiva do formato na Mostra de Tiradentes. Dessa série inicial destaco A Destruição do Planeta Live (Marcus Curvelo, 2021), ao mesmo tempo extensão e contraponto das narrativas de Joder, personagem já célebre do cineasta.


Joder dá lugar a Marcus (o próprio Curvelo), jovem dividido entre a promessa indigesta de trabalho e o desejo de suicídio. Sua existência melancólica propõe uma traição do humor, que até se manifesta nos minutos iniciais, quando vemos um idoso ouvindo hip hop e uma bolsa de mercado cujo nome é um trocadilho infame. Depois a graça se dissipa e a tristeza fica. Surge então o plano do rapaz apontando a arma pra sua própria imagem, como se pretendesse matar a iconografia imposta ao seu semblante.


Daí em diante é só ladeira abaixo. É o carro que não pega nem no tranco, são os transeuntes à deriva pela orla, é a juventude enchendo a cara pra aguentar a derrota. Marcus encontra um bróder pra chamar de seu. Mas Murilo (Sampaio) tá mais perdido que tatu na beira do rio. Enquanto ele narra uma reparação histórica impossível, Marcus ri desesperado e murcha seu rosto ao vivo. Então, no mundo dos mortos, tudo fica bem. E tal contexto é habitado pelos zumbis do dia a dia, aqueles que perderam o norte e não sabem se vale seguir em frente.

A Destruição do Planeta Live traduz certo imaginário juvenil de esquerda que viu o país ser tomado de assalto pela extrema-direita, com direito a macaxeira na manteiga, cuscuz seco e uma pitada de impotência. Assim, a frustação com a macropolítica toma conta do cotidiano, a tal ponto que o sujeito se vê inerte, esperando que a salvação venha a reboque num beco sem saída. A solução é brisar em cima da pedra ou dar um tiro contra a própria testa. Porém, ambas as coisas necessitam esforço.


Mas falo tudo isso pra dizer que a crônica de hoje não é sobre um curta, e sim sobre dois longas exibidos na Aurora, crème de la crème do festival. Sobre os curtas, tenho uma boa dívida com os da Panorama, outra mostra instigante, além de quase não ter visto os da Jovem ou Formação. Em breve, acredito que tais pendências sejam sanadas, aí imagino escrever algo mais bem articulado. De todo modo, ao contrário do amigo Rubão, prometo não vê-los na ordem estabelecida pela curadoria, nem me restringirei à composição das mostras onde estão dispostos. Se tem um coisa boa dessa modalidade virtual é o estímulo à anarquia.


Subversão essa que me fez pensar a respeito de Açucena (Isaac Donato, 2021) e Oráculo (Melissa Dullius e Gustavo Jahn, 2020). São obras com características estéticas bem distintas, mas que elegem a temporalidade como condição metódica. Tempo esculpido e tempo implodido habitam o mesmo cosmos, forjando um campo de atrito entre o desejo de quem realiza e o universo de quem tá sendo filmado.


Meus pais eram metalúrgicos. Depois de abandonar a metalurgia, minha mãe tornou-se costureira e professora. Portanto, pra ela, urdir o tempo sempre foi um troço importante. Estabelecer uma temporalidade própria para o trabalho idem. O tempo de uma costureira não é o mesmo de uma professora. Afinal, uma costureira pode cerzir o que uma professora não tem como remendar. Uma aula acaba e pronto, morre-se o dia. Uma costura não. Trabalha-se nela de dia, de noite, de madrugada, faz-se do tempo um navio encalhado.

Açucena é, antes de tudo, um documentário sobre a presença do erê no cotidiano. E o erê é o resquício de infância que nos habita. É aquela memória que brinca com a gente e nos protege da velocidade desmedida do tempo. No filme, só vamos ter certeza disso bem depois, mais precisamente no final, quando já nem importa mais. O percurso dessa caminhada é o que vale, e ele é movido por um ritmo plácido, misterioso, repleto de ações e personagens repetidos.


Dona Guiomar é o centro dessa repetição. Prestes a completar 67 anos, ela coleciona um sem-fim de bonecas loiras deslocadas do tempo, como se o retorno aos anos 60 estivesse ali na esquina. Não podendo fazer parte da infância dela, o filme escolhe filmá-la à espreita, com um distanciamento de quem a escuta com respeito, mas não quer desafiá-la.


Diante de um universo tão fabuloso/fabular, desafiar o tempo é fundamental. E seria injusto dizer que esse desafio não acontece, tendo o espectador olhos alvoroçados como os de uma lebre. Mas a sensação é que a câmera distante, imóvel, quase sempre de soslaio acomoda mais que desafia. Sinto que Guiomar tem muito a dizer não só sobre a Açucena de todo dia, mas sobre a anunciação de toda hora. Ela convida o filme a participar de sua vida, mas este prefere manter-se cauteloso. Aliás, afastamento e canja de galinha não fazem mal a ninguém hoje em dia. Justo também.

Nesse vórtice temporal, me vejo pensando cada vez mais em Oráculo, visto anteontem. Talvez seja difícil não lembrar dele nos próximos dias, até porque seu método se transmuta à continuação dos sentidos. É como as gotas de uma torneira quebrada que não param de pingar. A gente ouve, depois imagina, se irrita, mas no fim se aquieta e começa a achar normal.


O tamanho de um rolo de 16mm é o impulso pra duração de cada plano, contabilizando seis sequências no total. O vai e vem do mar, da velhice, da juventude, do amor e da desilusão deixam o tempo correr solto. Ele se move, mas o filme fica parado. Costumo considerar esse aspecto bom, mas aqui há um incômodo gerado em mim, relacionado com os procedimentos de registro. De um lado, vejo o anseio de fazer com que cada sensação reverbere. De outro, observo que as sensações estão presas ao tempo. Então, como ecoar no outro se a sensação não se liberta de si mesma?


Na memória, tenho certeza que ficarão a menina que canta enquanto grava e a menina que anda e volta mulher, frustrada como quem tenta cessar a vida. Em suma, são a mesma pessoa. Por isso, o tal do tempo é uma medida desajustada mesmo. Toda vez que a gente tenta domá-lo, lá vem ele nos dizer que ficamos pra trás.


Roberto Cotta

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