• Roberto Cotta

Retórica do sumiço

Atualizado: 24 de jan. de 2021

Quem me conhece sabe que tenho apreço pelo fracasso. Basta que uma situação chué aconteça que lá estou eu chutando pedras pelas ruas. Ostinato (Paula Gaitán, 2021) e Pajeú (Pedro Diógenes, 2020) falam sobre dois tipos de frustração. A primeira parte do compositor Arrigo Barnabé e sua impossibilidade de enxergar na música contemporânea uma válvula de transformação interior. A segunda é o tormento de Maristela (Fatima Muniz) ao ver um riacho deteriorado em esgoto.


Não sendo possível a conformação, resta a conversa. E ambos fazem desse procedimento um campo particular. Ostinato é marcado pela flanância da fala, em compasso com a concisão da imagem. Já Pajeú se utiliza do didatismo da voz para mostrar o devaneio. Não há cartilha para lidar com isso, mas confesso que é difícil não trazer Garrincha pro papo.


Certa vez, Armando Nogueira escreveu que "para Garrincha, a superfície de um lenço era latifúndio". E não é isso que observo em nenhum dos filmes. Nesse gesto de partilha entre entrevistador e entrevistado não há uma vontade de alterar os batimentos cardíacos do mundo, o curso de um rio ou a dissonância musical. O fracasso também sequer é reposicionado, apenas teremos que encará-lo da maneira como surge. E talvez aí residam as forças e fraquezas dessas obras.

Os festivais online pouco me apetecem, mas permitem que os filmes sejam vistos de outro jeito. Como é o caso dessa sessão aqui fabulada, composta por obras alocadas em mostras distintas de Tiradentes. Provavelmente, não haveria essa mistura se assistidos presencialmente. E certamente não haveria a conversa que tive com Rebeca, minha companheira, que à metade de Ostinato lançou a melhor das provocações: "se esse filme fosse de algum estudante não vingaria de modo algum".


Tive que concordar, claro. Recebo dezenas de documentários estudantis calcados em entrevistas que dificilmente conseguem êxito, sendo esquecidos nas planilhas de inscrição dos festivais. E dessa máxima da Rebeca trago outra da aluna Fernanda Öberg, na ocasião de uma exibição de Noite de Sexta, Manhã de Sábado (Kléber Mendonça Filho, 2006) em sala de aula. Termina o filme, o debate começa e Fernanda pergunta: "poxa, por que essa decupagem de plano e contraplano é vista como algo fabuloso, enquanto tantos estudantes fazem o mesmo e não ganham destaque algum?".


Essas duas observações são tão incisivas que parecem nos colocar contra a parede. E não as considero nada ingênuas. Pelo contrário, são de uma consciência e frontalidade preciosas que merecem ser cada vez mais valorizadas. Nesse bate-rebate de perguntas e respostas, falta a Ostinato e Pajeú um pouco da contundência formal dessas indagações, que têm o nobre propósito de abalar o mundo, transfigurar a ordem do dia, fraturar as reações prontas. Ainda que se enquadre Arrigo Barnabé de frente, por que não mergulhar em sua concepção artística atonal junto com ele? Ainda que Maristela queira saber por que o rio morreu, por que não dar a ela tais informações de modo desarmônico, como a própria morte é?

Ao mesmo tempo, não seria possível extrair de Arrigo em Ostinato toda a beleza daquela conversa a respeito da escatologia se não houvesse o comodismo da câmera estática posicionada em sua direção. O compositor comenta uma ideia solta que gera em Paula o desejo de saber mais. Vemos o desconforto dele com a insistência da cineasta, que lança uma série de pensamentos tentando entendê-lo. À medida que Paula matuta suas reflexões, Arrigo tamborila uma composição imaginária, dando uma sensação de perdição no olhar. De repente, Paula o deixa só, pede que ele fale, mas o músico a desobedece executando uma melodia em seu piano. A palavra traz uma pulsão melódica a Arrigo, enquanto a música impulsiona o desejo de concretude em Paula.


Também é nesse bailado de trocas destoantes que Pajeú se desenvolve. Primeiro, o corpo jovem de Maristela se depara com o corpo decrépito do riacho. Depois, o presente da personagem tenta lidar com o passado de sua cidade, Fortaleza. Por fim, são promovidos diversos encontros geracionais, tanto com amigos mais velhos como Yuri (Yuri Yamamoto) quanto com pesquisadores que lançam luz sobre o que aconteceu com o rio. Mas o choque mais propositivo acontece quando ela confronta vários adolescentes na praia, com idade inferior à dela. Eles nada sabem do riacho, mas meditam sobre o meio-ambiente e a necessidade de preservação. Daí pra trás não dá pra mudar o rumo dos fatos. Mas daqui pra frente é possível impedir novos desaparecimentos.


E o medo do sumiço sempre vem. Arrigo luta contra o próprio envelhecimento enquanto elucubra sobre a decadência musical. Maristela observa o riacho morto e tenta revivê-lo através das poucas memórias que sobram. Talvez (sempre talvez) esses não sejam gestos tão simples assim. E quem sabe dessa impossibilidade de transformação, interior ou exterior, não surjam os traços singulares desses filmes em comparação a tantos outros que se utilizam dos mesmos procedimentos. Mas o que percebo é que a superfície do lenço se mantém intacta. E não há problema algum. Como diria Adélia Prado, "de vez em quando Deus me tira a poesia. Olho pedra e vejo pedra mesmo". Nesta conversa, lenço é pedra e pedra é matéria de permanência frente ao esquecimento.


Roberto Cotta

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